2016

Ocean

Sinto a aflição de um mundo que respira doente
Com uma pedra na boca do estômago e prognostico de cancer pulmonar.
Acordo depois de ter dormido demais, em um quarto desconhecido
Ainda cambaleando retornando do limbo dos sonhos
Caminho com violentos tropicões
Entre retóricas falidas, altruísmo corrompido, a seca casca da vida
Onde foi que mudei?
Qual parte essa em que deixei de acreditar?
Como ser; amar; sentir com toda essa vastidão?
Abrir o ralo do mundo?
E como ser; amar; sentir sem toda essa vastidão?
Talvez ser máquina outrora indiferença?
Vivo em frequente correnteza
Sentindo ainda um certo despreparo para a vida
Como corpo imerso a água em um nado fraco e descoordenado
Lutando para chegar ao outro lado do canal.
Exausta; fecho os olhos
Eu não sei nada
E o nada ecoa além de onde o meu olhar se divide
Permito o choro, água branda.
E entre a chuva que cria
O vento que semeia
O verde que peneira
Tomo meu corpo e o devolvo a natureza
Dissolvo-me e torno parte do todo.
Eu? Pequena; tão pequena sim.
Como a ação se torna impacto com toda essa “pequenitude”?
Eu? Gota que pinga demoradamente no oceano
De repente não sou mais gota e sim o próprio oceano

Do Cardume por C.Gregory

 

Notas de amável desassossego 

free
  Talvez você se sinta como o lápis que caiu no chão, eu poderia entender que esse era o solavanco que te tremia de horror, qualquer tipo de desvio que te tirasse do eixo, a venda que te cobre os olhos escorregando do rosto.
  Mas então você se deu conta, como existem momentos em que acreditamos em bobagens e fuçamos fundo em tentativa de caçar animo para uma alma fraca, a luta doentia em sustentar as aparências, quando o mais sensato seria quebrar um copo, cortar os cabelos, viajar sozinha, se sentir bonita, mas então você pisa em grama fofa; diz não.
  Nós poderíamos conversar durante horas, criar um extenso ensaio sobre a parvoíce, nos auto criticar e nos tornar virtuosas peculiares ao mesmo tempo, dormir no tapete ao final da noite.
  Eu poderia até te emprestar a fronha de travesseiro que acabei de recolher do varal, ainda cheira a qualquer coisa tranquilizante que minha mãe usava para lavar as roupas, mas se você não está disposta a sonhar; então, não.
  Me revira a alma em cambalhotas frenéticas ver-te fazer do engano uma cama quente e confortável, mas digo sem cuidado algum que para viver a poesia, precisa mais que pernas enroscada em edredons limpos.
  Digo que tenho um medo tão grande de desaparecer, como pode você pensar que não teme o mesmo que eu? Ainda assim prefiro uma injeção de eutanásia e desaparecer como acetona aberta a viver sem mim.
  Sei que quem te viu chorar o doce pranto de menina triste, não sabe que quando realmente chorou, chorou baixinho, desaparecida de olhos desinteressados, depois costuma sorrir chateada, assim como bobina a aceitar a vida que te parece tão difícil de trocar.
  Não queiras ser um simples elemento paisagístico a ti mesma, e se descontrole muito com a monotonia, decida tranquila de mutuo acordo contigo, uma coisa linda que inclua somente você, use a sua motivação mais íntima, deteste, deteste muito, e não se torture aceitando o que detesta, pare de ensaiar, de encontrar palavras que não são tuas para te realinhar, deixe que as tuas palavras soem límpidas, espontâneas como um passarinhar aos ouvidos, você tem vida contida, mas não peças para entregar-te o que é viver, apenas deslize sentindo sensivelmente o ar que envolve teu corpo acariciar-te como notas de doce amor, ao invés de como de costume, se trancafiar dentro de um vidro limpo de maionese com buraquinhos feitos de alfinete na tampa, economizando ar; nada disso! Encha teus pulmões com aquilo que te foi regalado.
Cure-se.
 
Com grande afeto.
Do Cardume por C.Gregory

Uma carta sobre nós (conexão de amor Torino/São Paulo)

 manuscript-203465_1920
  Já faz um tempo que quero tanto discorrer sobre você, recolher as palavras mais lindas do mundo para te descrever, se eu pudesse minha querida, encontrar um modo de te dizer, de explicar, de compor em poucas linhas, em uma simples e objetiva sequência de palavras o modo justo de te exaltar, de te esclarecer, límpida, concreta, puramente você, seria uma luta de uma vida inteira; esse universo que te compõe catalogado; que projeto ousado esse.
  Aquele que não conhece a solidão, o caminhar sozinho por toda vastidão do ser, aquele que não reconhece o pequeno existir particular, que ignora esse mundo paralelo que é o ato de sentir, não poderia compartilhar daquilo que somos hoje, eu e você.
  O presente que você me trouxe é o bem que eu jamais poderia me desfazer, largaria as roupas, a coleção de moedas, poemas escritos, fotos antigas, mas levaria o tesouro da nossa amizade para qualquer lugar que eu fosse.
  Quando você apareceu, pensei por um momento que poderia não dar certo, já tinham se passado tantos anos que aprendera a me virar sozinha, olhando o mundo de soslaio, pisando no chão devagar como se houvesse caquinhos de vidros caídos, e escondendo facilmente a dor quando cortava meus pés; mas então a menina do quarto ao lado surgiu mostrando os seus cortes, e então a vida tomou um outro rumo.
  Hoje sei que uma parte do meu coração foi entregue em uma caixinha dourada, amarrada com um laço vermelho que sela e zela a nossa marca no meio do mundo, tive um grande privilégio na vida, em poder te entregar a melhor parte de mim, a minha amizade, assim como você me deu a honra da sua.
  Existe um limite concreto no tempo depois que você apareceu, meu mundo agora carrega uma leve brisa que se assimila muito com aquele sopro analgésico sobre um pequeno machucado. O dia em que segurei a tua mão, quando muito aflita você não podia dormir, ou quando bateras na minha porta de madrugada porque precisava de amparo, percebi, meio atoa, que mais importante que ter alguém para contar, é saber que alguém conta com você, que confia em você o ato de colar alguns pedacinhos miúdos, e de repente, parece que de um certo modo você passa a fazer algum sentido.
  Minha querida, você me deu o poder sem perceber, de devagar ir me retomando, voltar a conversar sobre mim, a não ter vergonha de chorar se algo está espetando, me mostrou que não faz sentido nenhum querer parecer sempre forte, e enfrentar sozinha um redemoinho interno, e então eu pude relaxar um pouco; relaxar, essa palavra quase estranha para nós.
  Minha doce amiga, me desculpe se em algum ato quase materno te remexi com palavras, na tentativa exasperada de te salvar por meios que pareciam tão justos a mim, mas que a qualquer altura pode ter lhe causado algum tipo de dor, minhas tentativas eram sempre as de te fazer sentir a vida em seus mais singelos detalhes, sempre quis te ver desabrochar como uma flor de primavera, com sua pele lindamente viva e seu sorriso largo.
  Hoje, nesse dia tão milagroso, que é também a data que me faz lembrar a sorte que tenho por ter uma grande amiga, e que me dá muito orgulho em pensar que cultivamos em meio a divergências de pensamentos, crenças e personalidades muito diferentes, uma amizade tão delicada e cheia de beleza que é a nossa, é também dia de reconhecer um fato engraçado na minha vida, o de estar tão longe de alguém e mesmo assim nunca ter me sentido tão perto.
     Hoje eu apenas não poderia perder a chance de te agradecer por ter tocado meu mundo com todo o seu amor, e te fazer crer o quando você o modificou sendo apenas quem você é, um feliz aniversário é simplesmente muito, mas muito pouco para um 24 de maio.
Te amo, infinitamente.
Para minha amiga Camila.
Do Cardume por C.Gregory

 

 

 

 

Ligeira

cavalerizza
A dinâmica dos corpos me sustentava no ar, e ali fiquei, em algum lugar entre as nuvens e o infinito, sutilmente, horas depois, meus pés tocam o chão, honestamente, era corpo, carregava roupas e uma gargantilha de ouro, ainda assim, apenas corpo, inexorável corpo, carcaça polêmica que aprisiona a alma de alguém que existiu. Eu não estava aqui, e nem lá, estava certamente no céu, só podia ser, é claro que sim. Me lembrei do poema de Rita Apoena que alguns dias atrás uma amiga me escreveu: “será que, às vezes, a gente vai com tanta pressa ao encontro de alguém que se esquece de se levar junto?”. E de repente tinha pulso novamente, senti o corpo aquecer, a pele enrubescendo, abandonando a palidez, será um chamado da terra? Um palpite da transformação me escolhendo a dedo? Eu não sei colegas, sinto, mas não sei, me arrisco a dizer que a alma em órbita me fez visita e se foi sem despedida, mansinha querendo sair despercebida com pés de gatinhos, pra brincar comigo, como amante que se vai com ar de quem saiu pra comprar cigarros, mas que certamente volta; outra hora, nos dias seguintes, no próximo mês, n’outro ano; e sem aviso aparece como quem nunca partiu.
Contudo, não devo pensar nas tantas horas perdidas que como débil, sentada mirei um ponto fixo, e de lá revivia a vida, floreada, sonhos de avalanches, um ou outro momento odioso desritmava-me, e quem se preocupa em me perceber quase enxerga dentro do par de olhos, este nunca estava; e eu definia os devaneios de “cegueira da vida não interpretada”, aquilo que recusei e que no entanto quis, como quis, os amores imaginários que me invadem o pensamento, já que me coloquei em um falso derrame incontido de prosternação.
Queria lançar-me ao rio gelado, sentir o ardor da pele estapeada, limpar as vistas da neblina, na tentativa de retomar no corpo a alma; besteira romancista.
Enxergo-me estendida no chão, chacoalho-me com minhas mãos astrais, estou do outro lado, grito e a voz não sai. Que coisa estranha, a palma das mãos estão doendo, quentes dos tapas que dei no rosto do corpo estirado. Quando acordei, cheguei a fantasiar ser uma bruxa, entorpecida pela magia da cidade, será ela, a cidade, a culpada por minha alma vagar sem mim? Levando essa questão matinal que me da qualquer sentido, misturo o queijo com a geléia e sorrio, comprando as passagens para a terra eu.
Do Cardume por C.Gregory